AULA 7 – Cap. 2.11-17: Advertência contra o cerimonialismo judaico

11 Nele, também fostes circuncidados, não por intermédio de mãos, mas no despojamento do corpo da carne, que é a circuncisão de Cristo,

Agora as atenções são voltadas para o rito da circuncisão; contra aqueles que sustentavam que os cristãos deveriam ser circuncidados.

Paulo faz a notável observação de que os seus leitores foram circuncidados, e que ela é muito superior à circuncisão judaica:

A nossa circuncisão não foi feita por mãos humanas, mas sim pelo Espírito Santo; a judaica foi uma operação manual.

A nossa foi interna, do coração (Rm 2.28-29); a judaica era exterior (o que não significa que teria algum valor se fosse mero rito, mesmo antes de Cristo).

A nossa despojou o corpo da carne, operando santificação; a judaica, remoção da pele.

A cristã é a circuncisão de Cristo; a judaica é Abraâmica e Mosaica.

Há quem sustente até os dias de hoje que, se quisermos ser como Cristo, deveríamos nos circuncidar assim como ele.  Entretanto, a circuncisão física foi um pacto, uma aliança com Abraão; que não foi considerada extensiva aos gentios (Atos 15), pois Cristo é a nossa circuncisão, que cumpriu em sua carne todos os mandamentos em forma de ordenanças.


12 tendo sido sepultados, juntamente com ele, no batismo, no qual igualmente fostes ressuscitados mediante a fé no poder de Deus que o ressuscitou dentre os mortos.


Uma realidade fascinante. A verdadeira fé nos une a Cristo, e o batismo simboliza o fato de termos morrido e ressuscitado com Ele. Não se trata de um ritual mágico, que opera algo independente da fé da pessoa. Por isso que se diz “ressuscitados mediante a fé” no poder de Deus. É esse poder (energia) de Deus que realiza o milagre da morte do velho eu e da ressurreição em nós.

Batistas e pentecostais, baseado nessa ideia de sepultamento, preferem realizar o batismo por imersão, diferente de outros grupos que o fazem por aspersão, invocando outros símbolos (Ezequiel 36.25).

A menção ao batismo logo após a crítica à circuncisão literal tem levado alguns comentaristas a entender que o batismo, de fato, substituiu o rito da circuncisão. Daí, entenderem que o que Rm 4.11 diz sobre a circuncisão (sinal e selo) é válido hoje para o batismo.


13 E a vós outros, que estáveis mortos pelas vossas transgressões e pela incircuncisão da vossa carne, vos deu vida juntamente com ele, perdoando todos os nossos delitos;

“Vós outros”, ou seja, os gentios. Paulo não alivia para estes, e afirma que estavam mortos em delitos e em pecados, sendo sua incircuncisão o símbolo vivo de seu estado pecaminoso. Viver assim é estar morto em transgressões. Entretanto, foi nesse mesmo estado que Deus nos deu vida! Note que o versículo começa com “vós outros” (ou seja, se dirigindo aos gentios), mas termina com “todos os NOSSOS delitos”, ou seja, Paulo inclui a si próprio e todos os judeus na necessidade do perdão de todos os delitos.


14 tendo cancelado o escrito de dívida, que era contra nós e que constava de ordenanças, o qual nos era prejudicial, removeu-o inteiramente, encravando-o na cruz;

O que seria esse “escrito de dívida”? Seria uma lista com todos os nossos pecados, demonstrando assim nossa dívida para com Deus? Não; o escrito de dívida era a própria lei, que constava de ordenanças. Essa lei dizia que “maldito o que não andar segundo todas as coisas escritas no livro da lei para praticá-las” (Deut 27.26). Ou seja, embora a lei fosse boa, fato é que ninguém conseguiria vive-la plenamente, sendo sempre motivo de acusação para com todos os que pecassem. Sendo assim, com a morte de Cristo, Deus “cancelou o escrito de dívida” e “removeu-o inteiramente, encravando-o na cruz”. Essas ordenanças, essas acusações da lei, essas leis cerimoniais que não eram um fim em si mesmas (como sacrifícios de animais, circuncisão) foram encravadas na cruz! Morreram com Cristo! Tudo ali foi consumado! Todas essas ordenanças que remetiam à lei cerimonial acabaram para os cristãos! Daí, não fazer sentido voltar para os velhos rituais judaicos.


15 e, despojando os principados e as potestades, publicamente os expôs ao desprezo, triunfando deles na cruz.

Na cruz, Jesus despojou os principados e potestades (anjos maus) da munição que tinham para acusar os irmãos, pois tais seres são acusadores (Jó 1.9-11; Zc 3.1-5; Ap 12.10). Ele nos resgatou do domínio das trevas (Col 1.13). Tais seres são meras criaturas (Col 1.16). Cristo é o cabeça de todo principado e autoridade (Col 2.10). Jesus venceu o diabo no deserto (Mt 4.1-11). Amarrou o homem forte (Mt 12.29). Viu Satanás cair do céu como um relâmpago (Lc 10.18). Foi lançado fora o acusador dos irmãos (Ap 12.10).


16 Ninguém, pois, vos julgue por causa de comida e bebida, ou dia de festa, ou lua nova, ou sábados, 17 porque tudo isso tem sido sombra das coisas que haviam de vir; porém o corpo é de Cristo.

Ou seja, ninguém (os falsos mestres) vos julgue por não guardar esses rituais e essas rígidas prescrições alimentares. A lei trazia prescrições quanto ao comer (Lv 11). Entretanto, não há muitas proibições no que se refere ao beber, a não ser quando do serviço ao altar (Lv 10.9), pelo voto de nazireu (Num 6.3), embora a falta de moderação seja condenada (Is 5.11-12; Am 6.6; Pv 20.1), o que faz parecer que as regras dos falsos mestres de colossos eram até mais rígidas nessas questões. Havia as festas como a Páscoa, Pentecoste, Tabernáculos e outras (Lv 23), luas novas (Nm 10.10; 28.11), sábados (Ex 20.8-11).

Paulo deixa claro que tudo isso eram sombras do que haveria de vir. As prescrições alimentares do povo judeu, alicerçados na aliança da lei, tiveram seu caráter pedagógico ao propor o que era santo e imundo, entretanto, no início não era assim (Gn 1.30) e Jesus declarou puro todos os alimentos (Mc 7.19), embora ele mesmo tenha vivido debaixo da lei. Jesus é o pão da vida (Jo 6.35, 48), é a nossa Páscoa (1 Co 5.7), o nosso descanso (Mt 11.28,29), sendo nosso sumo-sacerdote (Hb 4.14).


Às vezes, antes de alguém chegar até nós, dependendo da posição da luz, podemos ver sua sombra chegando primeiro. Essa luz oferece um pouco o contorno de seu portador, e dá uma ideia de proximidade. Mas quando tal pessoa chega realmente, não precisamos mais olhar para a sombra. Foi assim que a lei se comportou em relação à Cristo. Eram sombras do que estava por vir. Mas vindo a realidade anunciada, não precisam mais serem observadas. Daí o dever de não se recriar novamente as prescrições da lei para a igreja.