terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Desembaraçando-nos de todo peso

Leitura: Hebreus 12.1

Por Carlos Seino

O autor aos hebreus nos exorta a corrermos a carreira que nos está proposta. Entretanto, duas coisas nos atrapalham: o peso e o pecado. Do pecado, sabemos que temos que nos livrar. Entretanto, há coisas que são pesos que carregamos, e que nos impedem de correr. Podem até não ser pecado, mas tendem a ele.

Que pesos poderiam ser estes?

Um deles é o desejo exacerbado pelas coisas materiais. Jesus disse que “ninguém pode servir a dois senhores, pois há de amar a um e aborrecer a outro, ou se devotará a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e as riquezas” (Mt 6.24). Também determinou que devemos nos guardar de toda a avareza, pois a vida não consiste na quantidade de bens que possuímos (Lc 12.15). Ou seja, em uma época materialista como a nossa, corremos o risco de focarmos demais na aquisição de bens, como casas, carros, roupas, investimentos, e coisas do tipo. Não que elas sejam erradas em si, mas se focarmos exclusivamente nisso, nossa carreira cristã começa a se tornar pesada, pois acabaremos nos dedicando muito pouco para Deus. Paulo diz que os que querem ficar ricos caem em tentação e laço e em profundas concupiscências (1 Tim 6.9). Somos chamados a uma vida simples, com contentamento, pois Deus tem cuidado de nós (1 Pe 5.7).

Outro peso bastante complicado e que atinge a maioria de nós é o cuidado pelas coisas dessa vida. Jesus ensinou seus discípulos que eles deveriam ter cuidado para que os seus corações não se sobrecarregassem com os efeitos da orgia, da embriaguez e dos cuidados deste mundo (Lc 21.34). Na parábola do semeador, o terceiro terreno é aquele em que a boa semente foi semeada entre os espinhos: “Os semeados entre os espinhos são os que ouvem a palavra, mas os cuidados desse mundo, a fascinação das riquezas e as demais ambições, concorrendo, sufocam a palavra, ficando ela infrutífera (Mc 4.18-19). A extrema ansiedade em prover a nós mesmos e a nossa família com os bens desse mundo, ainda que legítimos, podem acabar nos afastando dos caminhos do Senhor. Ainda que precisemos trabalhar e prover o necessário para a vida, temos que tomar cuidado para que isso não sobrecarregue nosso coração, por isso é bom reservar sempre tempo para a oração, leitura das Escrituras, tempo com a comunidade e com a família, não negociando os valores do reino.

Outra coisa que pode pesar muito em nossa caminhada cristã são os sentimentos negativos. Todos nós, em algum momento da nossa vida, sofremos algum tipo de agressão ou decepção emocional. São filhos que cresceram ouvindo coisas terríveis dos pais; cônjuges que se agridem mutualmente; traições, sejam familiares ou de amigos, e coisas do tipo. Isso pode fazer com que, mesmo sem desejar, desenvolva-se em nós muitas amarguras, traumas, tristezas e dores emocionais de todos os tipos, dificultando nosso envolvimento com outras pessoas, inclusive. Essas chagas são tão profundas na sociedade que acabam ocorrendo muitas agressões e até crimes passionais. Por isso, precisamos buscar a cura dessas nossas emoções negativas na presença de Deus, pois Ele pode nos curar de todo o mal e curar nossas emoções de todo e qualquer trauma. Há um versículo muito bonito no Salmo 16.11, em que o salmista expressa sua confiança no cuidado divino: “Tu me farás ver os caminhos da vida; na tua presença há plenitude de alegria, na tua destra, delícias perpetuamente”.

O último peso de que iremos tratar é o dos relacionamentos. Todos nós somos seres relacionais, e é assim que tem que ser. É muito bom ter família e amigos. Entretanto, pode acontecer de nossos relacionamentos também se tornarem um peso para a carreira cristã, quando passam a entrar em conflito com a vontade de Jesus. Por isso ele chegou a dize que “quem amar seu pai, ou sua mãe mais do que a mim, não é digno de mim; e quem ama seu filho ou sua filha mais do que a mim, não é digno de mim” (Mt 10.37-38). Ele também chegou a dizer: “se alguém vier a mim e não aborrecer a pai e mãe, mulher e filhos, irmãos e irmãs, e ainda a própria vida, não pode ser meu discípulo” (Lc 14.26). Ou seja, além de evitarmos a companhia daquelas pessoas que notadamente rejeitam o evangelho e fazem um mal para a nossa caminhada, também não podemos deixar que os relacionamentos legítimos, que não podemos abandonar, venham a ter prioridade acima de nosso compromisso com o evangelho.

Muitas outras coisas poderiam ser mencionadas como um peso para a nossa caminhada cristã, que poderemos explorar em outras oportunidades. De qualquer modo, que possamos nos desembaraçar de todas as coisas que tentam atrapalhar nossa vocação.