terça-feira, 19 de setembro de 2017

AULA 6 – Cap. 2.1-10: Jesus exaltado acima de toda a filosofia


1 Gostaria, pois, que soubésseis quão grande luta venho mantendo por vós, pelos laodicenses e por quantos não me viram face a face;

De que luta estaria Paulo falando? E ele inclui também os laodicences e todos os que não o conheciam pessoalmente.

Certamente essa luta envolve bastante oração, conforme até aqui já vimos. Paulo também empreende seus esforços intelectuais, iluminados pela graça de Deus para prevenir todos os seus leitores das diversas filosofias que ameaçavam o evangelho.

Assim também, nós devemos empreender todo o nosso esforço em oração e no ensino para prevenir nossos irmãos dos diversos erros que se apresentam em nossos dias.

2 para que o coração deles seja confortado e vinculado juntamente em amor, e eles tenham toda a riqueza da forte convicção do entendimento, para compreenderem plenamente o mistério de Deus, Cristo,

Para que o coração seja “confortado”, ou em outra tradução, “fortalecido”, e vinculado juntamente em amor. Embora Paulo tenha muito o que ensinar do ponto de vista doutrinário, seu foco é o coração de seus leitores e de todos quanto precisarem. O coração é o centro da vida das pessoas, segundo a concepção da época. É do coração que procedem as fontes de vida, de modo que, ganhar o coração equivale a ganhar a pessoa inteira. Isso mostra que o objetivo do evangelho não é buscar uma adesão exterior, provocada pelos mais diversos fatores, como o medo, a ambição, ou a culpa, mas sim uma transformação do coração, de dentro para fora. Somente pessoas com o coração fortalecido no evangelho poderão resistir contra os diversos ataques que o mundo oferece. Talvez não sejam as poucas vezes que alguém possa se sentir seduzido por alguma vã filosofia, por não conseguir talvez até mesmo refutar certas ideias. Mas se o coração desta pessoa estiver firmado em Cristo, ela não errará o caminho. O coração tem que estar vinculado a Cristo pelo amor, e também uns para com os outros.

e eles tenham toda a riqueza da forte convicção do entendimento: Essa forte convicção do entendimento é considerada uma riqueza, por Paulo. O entendimento pleno do evangelho é considerado algo de muito valor. Os mestres gnósticos se julgavam detentores de um tipo de entendimento superior, mas para Paulo, isso é nada comparado ao conhecimento de Cristo. Nos dias atuais, muitos parecem desprezar um entendimento maior acerca de pessoa de Jesus, alicerçado nas Escrituras em troca de uma religiosidade um tanto quanto mais emocional. Paulo já havia falado acerca do coração anteriormente; agora escreve acerca do entendimento.

para compreenderem plenamente o mistério de Deus, Cristo: Mistério é algo que esteve oculto, mas foi revelado. O próprio Deus foi revelado em Cristo Jesus. Paulo deseja que seus leitores compreendam plenamente a Cristo, o que é um desafio e tanto.

3 em quem todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento estão ocultos.

É em Cristo que estão ocultos todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento. Note o completo foco que Paulo coloca em Cristo, pois este é completamente suficiente. Os mestres gnósticos colocavam Cristo “e algo mais”. Deturpavam a pessoa de Cristo, e pregavam a necessidade de um tipo de conhecimento oculto. Paulo diz que é em Cristo que se encontra oculta a sabedoria e o conhecimento, e que se chega a isso por meio de Jesus.

A pessoa de Cristo é toda abrangente, pois envolve toda a sabedoria e conhecimento. É uma busca interminável, pois estamos falando daquele em que habita a plenitude de toda a divindade. Nada há de mais profundo que o ser humano possa buscar, que não seja conhecer a Cristo.

A sabedoria divina é muitas vezes enfatizadas nas Escrituras, notadamente na obra da criação (Sl 104.24; Pv 8.22; Jr 10.12). Sua sabedoria também é expressa na salvação (1 Co 1.22-25). Em Cristo, se uniram judeus e gentios (Ef 2.13-14), a justiça divina e sua misericórdia (Rm 3.19-24) .


4 Assim digo para que ninguém vos engane com raciocínios falazes.

Raciocínios falazes também pode ser traduzido por “argumentos persuasivos”. É preciso tomar cuidado para não se deixar enredar por raciocínios que nos afastem da pessoa de Jesus.

5 Pois, embora ausente quanto ao corpo, contudo, em espírito, estou convosco, alegrando-me e verificando a vossa boa ordem e a firmeza da vossa fé em Cristo.

Paulo demonstra total apoio aos colossenses, demonstrando que a comunhão do povo de Deus transcende a separação física. Esse versículo denota que, embora Paulo esteja advertindo a igreja para que tome cuidado com falsos ensinamentos, ele está contente com tal igreja, pois ela tem demonstrado fé em Cristo. Isso nos ensina que, mesmo se uma igreja parece estar indo bem, não podemos descuidar de dar o ensinamento correto acerca do evangelho.

6 Ora, como recebestes Cristo Jesus, o Senhor, assim andai nele,

Ou seja, Paulo une aqui coisas que não podem ser separadas. Fé e obras. Convicção e prática. Andar n’ele significa andar em comunhão com ele, demonstrando uma vida condizente com aquilo que se diz acreditar.

7 nele radicados, e edificados, e confirmados na fé, tal como fostes instruídos, crescendo em ações de graças.

Radicados/arraigados; edificados; confirmados; instruídos = todas essas ênfases denotam uma ideia de firmeza em Cristo.

Crescendo/Transbordando em ações de graças: um coração verdadeiramente grato! Algo a ver com um “oceano de gratidão”.

8 Cuidado que ninguém vos venha a enredar com sua filosofia e vãs sutilezas (falsos enganos), conforme a tradição dos homens, conforme os rudimentos do mundo e não segundo Cristo;

Filosofias e vãs sutilezas visavam a enredar/escravizar as pessoas, afastando-as de Cristo. Cada forma sistemática de conhecimento era chamada de filosofia, mesmo se tivesse conotação religiosa, como por exemplo, a “filosofia de Moisés”, dos fariseus, saduceus, essênios, etc. havia também aquelas decorrentes do mundo greco-romano, como os epicuristas, cínicos, estóicos, etc. Nesta epístola parece haver uma miscelânea de crenças sintetizadas em formas filosóficas de se entender o mundo espiritual, com práticas disformes em relação ao evangelho. Conforme continuaremos a ver. Mesmo em nossos tempos, há uma série de ideias sistematizadas que podem acabar por tirar a firme convicção em Cristo dos fiéis. Tudo isso é segundo a tradição dos homens, em não segundo Cristo. Não é incomum algum começar a colocar mais força e energia em um tipo de filosofia e deixar Cristo de lado.

9 porquanto, nele, habita, corporalmente, toda a plenitude da Divindade.

Ou seja, divindade, deidade. Em Cristo habita a plenitude (pleroma) da divindade/deidade. Plenitude da divindade + corpo = divindade e humanidade de Cristo em uma única pessoa. Os falsos mestres ensinavam que a divindade estava fragmentada em diversos seres que faziam a intermediação entre os homens e um plano espiritual elevado. Paulo combate essa ideia, dizendo que a divindade não está fragmentada.

10 Também, nele, estais aperfeiçoados. Ele é o cabeça de todo principado e potestade.

Ou seja, é em Cristo que somos transformados. Paulo aqui vincula aquilo que Cristo é e o que veio fazer, que foi nos aperfeiçoar. Principados e potestades não estão acima de Jesus, conforme ensinavam os falsos mestres. É justamente o contrário. 

Nestes versículos vemos então que o cristão deve estar plenamente arraigado ao conhecimento de Cristo, e não se deixar seduzir e afastar do evangelho do Senhor, notadamente no que se refere a um sistema de ideias e práticas que nos afastem do caminho da salvação.

domingo, 3 de setembro de 2017

Não entristeçam o Espírito Santo de Deus



Esboço da mensagem: 

“E não entristeçais o Espírito de Deus no qual fostes selados para o dia da redenção” (Efésios 4.30).


Epístola aos efésios = uma epístola circular, com doutrina e questões práticas.

Cap. 1 – 3: questões doutrinárias

Cap 4 -  em diante: a prática de vida dos cristãos

O que aprendemos sobre o Espírito Santo nessa passagem?

1 – Que o Espírito Santo é dotado de personalidade: ele se entristece. Não pode ser apenas uma energia, uma força, uma coisa.

Passagens de apoio:

Intelecto: 1 Co 2.10;
Conhecimento: 1 Co 2.11;
Mente (Pensamento): Rm 8.27;  
Emoções: Ef 4.30;
Vontade: 1 Co 12.11; At 16.6;
Ensino: Jo 14.26;
Testemunho: Jo 15.26;
Guia (direção): Jo 16.13;
Convencimento (persuação): Jo 16.13;
Regeneração (novo nascimento): Jo 3.5;
Intercessão: Rm 8.26;

2 – Que o Espírito é de Deus, sendo o próprio Deus. Ele não é uma criatura, um anjo, ou algo do tipo. Ele é também chamado de Espírito de Cristo e Espírito Santo.


Passagens de apoio:

Onisciência: 1 Co 2.10-12 – conhece as profundezas de Deus e do ser humano.

Ele é chamado de Espírito de Deus: Rm 8.9 – ter o Espírito é o equivalente a ter o Espírito de Deus.

Ele também é chamado de Espírito de Cristo: Rm 8.9 – Espírito de Deus e Espírito de Cristo são a mesma pessoa.

Ele é o mesmo Espírito que ressuscitou Jesus dentre os mortos: Rm 8.11 – Somente Deus pode trazer um morto de volta à vida. Esse é o mesmo Espírito que habita em nós.

Ele também é Criador: Jó 33.4. Entendemos que já há uma noção hipostática do Espírito no Antigo Testamento, e não somente uma emanação da parte de Deus. Criação é um atributo da divindade.

Onipresença: Jo 14.17; Sl 139.7. Ele não habita em somente uma pessoa, mas em várias, e Ele convence o mundo.

Mentir a ele equivale a mentir a Deus: Atos 5.3 (Pedro diz que Ananias mentiu ao Espírito Santo) – Atos 5.4 (Pedro diz que Ananias mentiu a Deus)
1 Co 3.16-17 (Santuário de Deus) - 1 Co 6.19 (Santuário do Espírito Santo).
 O Espírito Santo é mencionado em igualdade com o Pai e o Filho: Mt 28.19; 1 Co 12.4-6; 2 Co 13.13; 1 Pe 1.2


3 – Ele nos selou para o dia da redenção:
          
           Selo – marca de propriedade quando você creu na mensagem do evangelho

           Redenção – o dia em que serão criados novos céus e nova terra onde habita a justiça. Onde seremos resgatados de nossa condição humana e pecaminosa. Será o fim do sofrimento de toda a criação.

COMO NÃO ENTRISTECER O ESPÍRITO SANTO?

Resumidamente: não pecar. E para o alegrar, é viver virtuosamente o evangelho de Cristo.

Temos a dica olhando todo o contexto dos vers. 17 – 32.

Vers. 17 – 24 – Paulo diz para nós nos despirmos do velho homem e nos vestirmos do novo homem.
Vers. 25 – Deixe a mentira e fale a verdade.
Vers. 26-27 – Não se deixe dominar pela ira.
Vers. 28 – Deixe de furta e trabalhe para ajudar quem tem necessidade.
Vers. 29 – Não saia da vossa boca nenhuma palavra torpe, mas somente a que for boa para a edificação.

Mas a ênfase maior é a que vem no versículo 31:

“Longe de vós, toda a amargura, e cólera, e ira, e gritaria, e blasfêmias, e bem assim toda a malícia”

Amargura = disposição interior de uma pessoa com língua aguda como uma flecha e afiada como uma navalha. Guarda ressentimento contra o seu próximo, e assim o fere, com respostas que mordem ou picam.

Cólera/fúria = forte sentimento de antagonismo que é expresso por meio de explosão tumultuosa – ocorrendo em consonância com “amargura” e “gritaria” apontam para um homicídio em potencial

Ira = explosão das emoções como uma fornalha ardente.

Gritaria = explosão violenta de uma pessoa que perde completamente o autocontrole e despeja suas emoções com gritos

Blasfêmias/Malediências = uso ofensivo das palavras dirigidas contra Deus e os homens.

Malícia = má inclinação da mente, perversa disposição em causar prejuízo ao próximo, com astúcia e falsidade.

O que mais entristece então o Espírito Santo são os pecados da língua que afetam negativamente os nossos relacionamentos. Entristecemos mais o Espírito Santo nos nossos relacionamentos.

Como temos que ser então?

“Antes sede uns para com os outros benignos, compassivos, perdoando-vos uns aos outros, como também Deus, em Cristo, vos perdoou”.

Benigno/bondoso = benevolência concedida pelo Espírito, inteiramente contrária à maldade. É fazer algo de bom a alguém.

Compassivo/misericordioso = afeto de Jesus sobre a vida do outro, é ter uma profunda empatia pelo outro, interesse.

Perdoando-vos uns aos outros = sem perdão, é impossível qualquer tipo de comunhão.

Como Deus, em Cristo, nos perdoou: perdoamos porque fomos perdoados.

Assim como um pai não gosta de ver seus filhos fazerem mal a si próprios e aos outros, assim também é o Espírito Santo para conosco.

Algumas lições que podemos aprender aqui:

1 – APRENDA A CONTROLAR SUA EMOÇÕES NEGATIVAS.

Principalmente a sua raiva, a sua indignação. Não vá falando tudo o que você pensa. Cuidado com atitudes negativas.

2 – CUIDADO COM A AGRESSIVIDADE EXPRESSA ÀS PESSOAS AO SEU REDOR.

Com as pessoas de dentro da sua própria casa.
Com pessoas do seu círculo profissional.
Com pessoas do seu círculo eclesiástico e social.

3 – CONSTRUA UM RELACIONAMENTO SAUDÁVEL COM AS PESSOAS PARA TER UM RELACIONAMENTO SAUDÁVEL COM O ESPÍRITO DE DEUS.

Curioso que nessa passagem que diz para nós não entristecermos o Espírito Santo de Deus nada diz sobre ler a Bíblia e orar, por exemplo. Está falando o tempo todo de relacionamentos.

Ler as Escrituras e orar devem nos preparar para os relacionamentos. 

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu



"Seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu" é o terceiro pedido que fazemos na oração que nosso Senhor nos ensinou.

Ao assim orarmos, pedimos que seja feia a vontade de Deus em nossas vidas. Mas que vontade é essa?

Há uma vontade oculta em Deus, que diz respeito aos seus desígnios, que independem do nosso desejo para que se cumpram, como por exemplo, o fato d'Ele ter enviado o seu Filho ao mundo. Não dependia de nós desejarmos ou não, pedir ou não, o Pai iria mandar o seu Filho, bem como o Filho retornará mais uma vez. Embora isso faça parte da vontade soberana de Deus, não significa que não podemos ansiar por ela.

Além do que também há aspectos da vontade divina que se cumprirão em nossas vidas, e nessa oração expressamos nossa conformidade a ela, como por exemplo, dificuldades que o Senhor permite ou determina em nossas vidas.

Entretanto, é bem mais possível que a oração diga respeito à vontade moral de Deus, sendo cumpria espontaneamente na terra assim como ela é cumprida no céu. O cumprimento dos mandamentos, como o de amar como Cristo amou, se realizando em nosso meio.

Mas alguém pode perguntar: se diz respeito à vontade moral de Deus sendo cumprida na terra, isso não deveria vir em formato de oração à Deus, mas sim em exortação aos homens.

Sim, é verdade. Tais exortações devem existir. Mas o modo como o Senhor nos ensina a orar não deixa de ser também uma certa exortação aos orantes, no sentido de que devem viver aquilo que estão pedindo. E assim, o Senhor concederá ainda maior graça para que se possa viver o cumprimento de tal vontade.

E assim também se complementa o pedido para que "venha a nós, o teu reino". Afinal, no reino, a vontade de Deus é plena e voluntariamente cumprida, pois o reino é "paz, justiça e alegria no Espírito Santo".

Que possamos a cada dia ansiar pelo cumprimento da vontade de Deus em nós e no mundo!

Leia também:




segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Aula 3 - Colossenses 1.15-20 - A primazia de Cristo na criação e na redenção

Os vers. 15 a 20 aparentemente retratam um hino cristão primitivo que relata a proeminência do Filho na Criação e na Redenção.

CRIAÇÃO

15 Este é a imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação;



16 pois, nele, foram criadas TODAS AS COISAS, nos céus e sobre a terra, as visíveis e as invisíveis, sejam tronos, sejam soberanias, quer principados, quer potestades. Tudo foi criado por meio dele e para ele.


17 Ele é antes de TODAS AS COISAS. Nele, tudo subsiste.

REDENÇÃO

18 Ele é a cabeça do corpo, da igreja. Ele é o princípio, o primogênito de entre os mortos, para em TODAS AS COISAS ter a primazia,


19 porque aprouve a Deus que, nele, residisse toda a plenitude






20 e que, havendo feito a paz pelo sangue da sua cruz, por meio dele, reconciliasse consigo mesmo TODAS AS COISAS, quer sobre a terra, quer nos céus.


15 Este é a imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação;

A imagem do Deus invisível – faz lembrar Gn 1.27, tendo sido o homem criado à imagem e semelhança de Deus. Entretanto, com uma diferença significativa (Cl 2.9; 2.3). Anos antes Paulo já havia escrito que Jesus era a imagem de Deus (2 Co 4.4). Jesus já havia “subsistido em forma de Deus” (Fl 2.6). Ele estava no princípio com Deus e era Deus, tendo se revelado aos homens (Jo 1.1,18). A ideia é de que o Filho corresponde plenamente à imagem de Deus. Assim como uma foto de uma pessoa corresponde à determinada pessoa, mais ainda Jesus corresponde completamente à imagem de Deus (Jo 10.30).

O primogênito de toda a criação. Aqueles que negam a divindade de Cristo utilizam esse verso para tentar demonstrar que Jesus foi a primeira criatura de Deus. Entretanto a ideia aqui não é de uma primeira criatura, mas sim de alguém que contém em si toda a criação. Note que o texto não diz acerca de dele como uma primeira criatura entre outras, como se estivesse na sequência, mas diz dele como realizando toda a criação, sendo antes de todas as coisas, sendo o próprio sustentador da vida (vers. 17)[1].

Se fizermos uma interpretação sistemática com outras passagens do Novo Testamento, não haverá margem para entendermos que Jesus não seja realmente plenamente divino, tendo existido desde sempre (Jo 1.1, 18; 10.30; 14.9; Fp 2.6; Hb 1.3; Ap 3.14; 1 Tim 1.17; 6.16; etc). Além do que é preciso verificar que, se aceitarmos que Jesus não tenha existido, ainda que por um curtíssimo espaço de tempo, a igreja primitiva teria sido politeísta em sua adoração, sendo o cristianismo talvez somente mais uma religião com um panteão de divindades a serem veneradas.

16 pois, nele, foram criadas todas as coisas, nos céus e sobre a terra, as visíveis e as invisíveis, sejam tronos, sejam soberanias, quer principados, quer potestades. Tudo foi criado por meio dele e para ele.
17 Ele é antes de todas as coisas. Nele, tudo subsiste.

Nele foram criadas todas as coisas: Paulo abrange tudo. Tudo está em Cristo, sejam as coisas visíveis ou invisíveis. Não há nada, seja no universo material ou espiritual que não esteja em Cristo. Tudo foi criado nele, por meio dele, e para ele. Daí se diz que toda a criatura e toda a criação tem como finalidade ser d’Ele e para Ele.

                                                                       

Ele é antes de todas as coisas: não houve tempo em que ele não existisse (João 17.5).

Todas as coisas subsistem nele. Tudo subsiste em Cristo; nada fora d’Ele.

18 Ele é a cabeça do corpo, da igreja. Ele é o princípio, o primogênito de entre os mortos, para em todas as coisas ter a primazia,

Cabeça do corpo, da igreja. É a primeira vez que Paulo faz menção direta de Cristo como sendo o cabeça do corpo, da igreja. Aqui, a menção não é a igreja local, mas universal. Nas Escrituras, tanto a igreja local quanto a universal são chamadas de corpo de Cristo. E Cristo é sempre o cabeça. “Cabeça” significa soberania, autoridade, comando.

Assim como ele é o primogênito na criação, é também o primogênito na ressurreição, para ter primazia, seja na Criação, seja na Redenção. Ele é Criador e é Redentor. Tudo isso temos que verificar no contexto de combate ás ideias dos falsos mestres, que ensinavam que Cristo era somente mais uma criatura e que não poderia, de modo algum, efetuar sozinho nenhum tipo de salvação, sendo somente mais um dentre os principados e potestades.

19 porque aprouve a Deus que, nele, residisse toda a plenitude

Expressa o prazer do Pai de residir plenamente (pleroma, um termo muito usado pelos gnósticos) em Cristo. Veja. A plenitude de Deus não está fragmentada em várias partes, várias potestades, principados, ao ponto do redentor para estar no nosso plano de existência tivesse que rejeitar praticamente toda a sua divindade. A plenitude de Deus está e sempre esteve em Cristo (2.9).

20 e que, havendo feito a paz pelo sangue da sua cruz, por meio dele, reconciliasse consigo mesmo todas as coisas, quer sobre a terra, quer nos céus.

Uma passagem em que muitos teólogos, como o grande Orígenes de Alexandria, pela sua leitura e interpretação literal, ensinaram que no final, todas as coisas serão reconciliadas com Deus, pelo sangue da cruz. Para ele e muitos teólogos depois dele, haveria esperança até mesmo para os anjos caídos. Não poucas pessoas têm ensinado assim, não excluindo todo o castigo e correção, mas que no final das contas, tudo será restaurado. Alguém disse que não seria possível uma alegria em um universo eterno em que se soubesse que há uma câmara de tortura para todo o sempre. Essa ideia foi considerada herética pela igreja católica romana e por todas as protestantes que se consideram ortodoxas, sobrevindo aqui ou acolá. 

A outra interpretação é no sentido da vitória de Cristo na cruz pelo seu sangue, submetendo todos pelo seu poder, pacificando assim o universo, restaurando-o em todos os sentidos, pacificando inclusive forças malévolas que seriam obrigados a se reconciliar, posto que vencidas e colocadas em um espaço onde não poderiam mais provocar desarmonia.




[1] Também houve quem fizesse um paralelo entre Cristo e a sabedoria (Pv 8.22), ideia bastante elaborada pelos pensadores judaicos de cultura grega; mas tal paralelo tem claras limitações.

A cura do paralítico de Cafarnaum




Marcos 2:1-12  (Esboço da mensagem)

-Jesus, o Filho de Deus, se limita a estar em lugares pequenos, limitados e comuns para que possamos nos ajuntar para ouvi-lo ensinar sua palavra; -Jesus está em casa, podemos ir até ele;
-Jesus e sua palavra atraem, onde ele está se ajuntam muitos;
-Onde Jesus está habitando, ele mostra o seu poder;
-Alguns dos que vem ter com Jesus conduzem outros a virem também, ainda que carregando-os;
-A paralisia de alguns é tão grande que será preciso mais de um para conduzi-lo à casa de Jesus;
-É possível que a multidão, o povo que está reunido para ouvir Jesus na casa dele, seja em algum momento, impedimento para os mais debilitados ou os que estão carregando outros a se aproximarem também;
-Mas eles calcularam e arrumaram uma forma de se aproximarem de Jesus, exatamente no ponto onde ele estava, o lugar mais perto de Jesus;
-Eles descobriram o telhado, fizeram uma abertura no lugar onde Jesus estava e baixaram o leito em que estava o paralítico;
-Quem está trazendo alguém debilitado a Jesus, muitas vezes, precisa descobrir o telhado, fazer a abertura, ir pela entrada mais difícil, abrir a passagem e introduzir a pessoa diante de Jesus na condição em que ela está;
-Vendo-lhes a fé, Jesus disse ao paralítico: filho, os teus pecados estão perdoados;
-Jesus olha a fé do que intercede e introduz alguém à presença dele;
-Jesus perdoa os pecados do paralítico revelando qual era sua necessidade primeira, mais urgente; -Estavam ali alguns escribas, doutores e interpretes da lei que censuraram e repreenderam em seus corações a atitude de Jesus por não compreenderem quem ele é, o Filho de Deus;
-Jesus responde verbalmente o que eles questionaram em pensamento, no coração;
-Para mostrar que ele tem autoridade na terra para perdoar pecados, Jesus manda o paralítico levantar;
-Mas uma vez Jesus quer mostrar que os sinais, os milagres que ele opera, são para revelar quem Ele é, e mostrar qual a real necessidade do homem, o perdão de Deus, reconciliar-se com Ele;
-Jesus diz ao paralítico: eu te mando, levanta-te, toma o teu leito e vai para sua casa;
-Jesus diz: eu ordeno que você se ponha de pé, pegue o seu apoio de doente e vai para o seu lugar; -Então, o paralítico se levantou, e no mesmo instante, tomando o leito, retirou-se à vista de todos, a ponto de se admirarem e todos darem glória a Deus;
-Quem se submete a autoridade de Cristo, é curado da sua paralisia e de pé faz o que ele ordena, levando outros que estão na casa e fora dela a glorificarem a Deus e maravilharem-se nele;

Considerações e aplicações 
- A casa onde Jesus estava era possivelmente de Pedro, seu discípulo. A casa de um discípulo de Cristo, tem que ser reconhecida como a casa do próprio Jesus, tem que ser lugar de reunir-se para ouvir sua palavra, e se tornar um lugar de perdão e milagres, não só para quem mora, mas para os que vem;
-Não é errado usar estratégias, meios não convencionais para levar alguém a Jesus, desde de que o único lugar onde essa estratégia leve, seja o ponto exato onde o mestre está ensinando sua palavra; 
-Na casa onde Jesus está, a palavra é anunciada, há movimentações comuns, há movimentações incomuns, há perdão, há cura e no final, Deus quem é glorificado;
-Existem alguns acometidos de tão grande paralisia, que você precisará de ajuda de outros para introduzi-lo na casa onde Jesus está; 
-Continue crendo, Jesus vai falar com quem você tem apresentado a ele;
-Onde Jesus está anunciando sua palavra:
Muitos, se ajuntam;
Alguns, vem a ele com fé trazendo alguém;
Alguns, aglomeram-se impedindo outros mais debilitados de entrar também;
Alguém, recebe o perdão e é completamente restaurado;
Todos, se admiram, dão glória a deus e testemunham.
 -É possível ser mestre da palavra e não compreender a forma como Cristo age;
-Jesus cura o homem completamente: Alma: filho; Espírito: perdoado estão os teus pecados; Corpo: levanta-te;
-Nós podemos ser carregados, introduzidos à presença do mestre Jesus por alguém, mas o perdão, a cura, a transformação sempre será entre você e Jesus;
-Que paralisia ainda há na vida de alguns de nós, que fazem as pessoas sempre terem que nos carregar até a presença do Cristo novamente?
-Se estamos na casa dele, diante dele, e Ele já nos perdoou, é hora de dar ouvidos e submeter-nos a sua ordem:
Levanta-te = ponha-se de pé; Toma o teu leito = toma aquilo em que você tem se apoiado, se assenhore; E vai para sua casa = vá para o seu lugar, o reino de Deus, sua família, a sociedade, o lugar que conhecia sua paralisia; 
-Quando formos curados de nossas paralisias por Jesus: Faremos movimentos que nunca fizemos antes, ou fazíamos e deixamos de fazer; Deixaremos de nos apoiar em coisas que começamos a nos apoiar por causa da paralisia; Seremos a vista de todos como nunca fomos antes, ou já fomos e deixamos de ser; Tudo isso trará glória a Deus, o único digno! 

 Significados* • Multidão = grande número de pessoas/povo; • Escriba = doutor da lei/que escrevia e traduzia a lei de Moisés; • Paralisia = perda de função motora em determinada parte do corpo/falta de ação.
*Fonte: Dicionário Aurélio

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

AULA 2 – Colossenses 1.9-14 – As orações em favor dos colossenses


“Por esta razão” (vers. 9): que razão? Qual fato? Pelo fato de Paulo e Timóteo terem ouvido da fé dos colossenses em Cristo Jesus e do amor que eles tinham para com todos os santos (vers. 4), entre outras coisas. Ou seja, tudo o quanto Paulo anteriormente tinha listado como motivo de agradecimento pela vida dos colossenses.

“Desde o dia que ouvimos” (vers. 9): ou seja, uma demonstração clara de que era uma igreja que eles não conheciam pessoalmente, mas que ouviram falar. Isso mostra que quando uma notícia chega aos nossos ouvidos acerca de irmãos na fé temos que orar.

“Não cessamos de orar por vós” (vers. 9): remete a uma atividade contínua, constante de oração pela vida dos colossenses. Esse era o costume constante de Paulo (Rm 1.9; Efésios 1.16; Filipenses 1.4; 1 Tessalonicenses 1.2; 2 Tessalonicenses 1.11). Paulo orava por todas as igrejas! Assim também a nossa rotina de oração pelas igrejas, pela vida dos irmãos, tem que ser constante.

Muitas vezes começamos com uma rotina de oração, mas não damos continuidade. Não deve ser assim. A oração tem que ser constante, e há quem diga que é a atividade mais importante da vida de um cristão.

E quais eram os motivos da oração de Paulo para com os colossenses? Quais os motivos de oração que o apóstolo julgava que era importante fazer pelos seus leitores?

1 - Que transbordeis de pleno conhecimento da sua vontade, em toda a sabedoria e entendimento espiritual (vers. 9): Paulo não ora para que eles tenham um breve, superficial, ralo conhecimento da vontade de Deus. Ele pede para que eles tenham um conhecimento transbordante, muito maior do que qualquer falso mestre gnóstico poderia oferecer.

Conhecimento (“epignōsis”) = conhecimento que tem conexão com a obediência prática – está em contado direito com a vontade de Deus. A vontade de Deus: como deve ser o viver prático dia a dia. Aparentemente então Paulo deseja que os cristãos transbordem do conhecimento prático da vontade do Senhor, e não um entendimento oculto, misterioso, como queriam fazer valer os mestres gnósticos.

Sabedoria (“sophia”) e entendimento (“sunesis”) espiritual (“pneumático”): sabedoria e entendimento também estão ligados às situações concretas na vida. É saber aplicar na prática todo o conhecimento adquirido.

2 - A fim de viverdes de modo digno do Senhor, para o seu inteiro agrado (vers. 10): confirmamos aqui então que o conhecimento, a sabedoria e o entendimento é voltando não para uma especulação filosófica, mas sim para um fim prático, qual seja, o de viver de modo digno do Senhor para seu inteiro agrado. Não se trata de um agrado parcial, de satisfazer o Senhor em determinadas coisas e não em outras. É para agradar totalmente.

3 – Frutificando em toda a boa obra (vers. 10): tem a ver com um caráter frutífero rumo a um amadurecimento espiritual. Tem a ver também com o testemunho comunitário que aquela comunidade vai realizando em sua localidade, por meio do evangelismo. E tem a ver também com as boas obras, obras de misericórdia que são realizadas ela comunidade. Todas elas são fruto do conhecimento da vontade do Senhor. De qualquer modo, no texto presente, parece que a ênfase é dada no primeiro aspecto, conforme veremos a seguir.

4 – E crescendo no pleno conhecimento de Deus (vers. 10): aqui, não se trata somente do conhecimento de sua vontade, mas no conhecimento da pessoa do próprio Deus, que se dá por intermédio de uma comunhão espiritual, não somente teórica. A ideia é que se pode crescer nisso a cada dia também. Diferente da falsa “gnósis”, que é um conhecimento especulativo, aqui se trata de um conhecimento relacional. O conhecimento de Deus é vital para a vida eterna (João 17.3).

E quais serão os resultados do cumprimento dessas orações na vida dos colossenses?

1 – Fortalecimento: “sendo fortalecidos com todo o poder, segundo a força da sua glória” (vers. 11): Paulo sabe que essa vida que deseja que seus leitores vivam só pode ser vivida pelo poder de Deus, daí a necessidade das constantes orações. Não é uma vida que pode ser vivida somente pela carne, pelo esforço humano. Essa fonte é inesgotável, pois é segundo a força da sua glória.

2 – Caráter fiel: “em toda a perseverança e longanimidade” (vers. 11): essas virtudes demonstram que o frutificar mencionado anteriormente tem a ver com o crescimento pessoal do indivíduo. Notamos a maturidade de alguém mediante essas duas virtudes combinadas (entre outras). Perseverança é se manter constate em seus propósitos, mesmo em meio às dificuldades referentes aos fatos, situações, coisas. Longanimidade (longo ânimo, uma paciência “espichada” é o que possibilita aquela perseverança). Tem a ver principalmente com o suportar pessoas difíceis durante a jornada.

3 – Alegria interior: “com alegria” (vers. 12): essa vida de poder, de perseverança, de longanimidade não é para produzir santos carrancudos. Tudo isso deve gerar de fato a verdadeira alegria, que o mundo não pode fornecer nem tirar da vida do fiel. A alegria é fruto do Espírito.

4 – Gratidão: “dando graças ao Pai” (vers. 12): ou seja, uma vida de constante agradecimento. É um imperativo para que os colossenses tenham um coração grato. Mas dando graças pelo que?

Herança: “que vos (2ª pessoa do plural) fez idôneos à parte que vos cabe da herança dos santos na luz” (vers. 12): é um eco do antigo testamento, quando foi prometida uma herança à descendência de Abraão (Gn 13.4-17) que possuiriam e dividiriam a terra conquistada. Mas a nossa herança é muito maior, pois é a herança dos santos na luz.

Liberdade: “Ele nos (1ª pessoa do plural) libertou do império das trevas e nos transportou para o reino do Filho do seu amor” (vers. 13): a mudança da segunda para a primeira pessoa do plural demonstra o modo como Paulo se sentia tocado pela mensagem que ele mesmo proclamava. Há aqui um movimento de libertação espiritual. Fomos removidos espiritualmente de um reino para outro, de um povo para outro. O império das trevas é onde reina a escuridão, a morte, a influência espiritual do diabo. O reino do Filho é um reino de luz, de amor.


Perdão: “No qual temos (1ª pessoa do plural) a redenção, a remissão dos pecados” (vers. 14): redenção é justamente esse resgate do reino das trevas. Remissão é o perdão dos pecados que obtivemos na cruz.